segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Para ver, ouvir e dar passagem

Gosto de observar as pessoas e as suas reações, não sou fofoqueira. Aliás, daria uma péssima fofoqueira, eu sempre me esqueço dos detalhes da história, mas registro muito bem as sensações.

No meu trabalho atual, não como parte da função, mas como consequência dela, acabei por observar as pessoas que passam todos os dias no corredor daquele pequeno centro comercial. Talvez não sejam pessoas interessantes, mas são no mínimo instigantes e dariam ótimas personagens.


O primeiro que me despertou para uma observação mais atenta dos demais frequentadores é um senhor de bigode que todos os dias está a porta do supermercado assim que abre e todos os dias ele compra 2 engradados de cervejas long neck em taras retornáveis. Eu ficava – e ainda fico – me perguntando, seriam para consumo próprio? Mas quem consegue consumir tanta cerveja de uma vez só e todos os dias? E se é para revenda, por que não compra direto do fornecedor? Sairia muito mais barato.

Tem um senhorzinho muito simpático que nos cumprimenta, diz que já tomou o café, vai dar uma voltinha, comprar qualquer coisa e que mais tarde volta para “tomar um gelado”. Ele sempre conta a história da sua filha que hoje vive em Londres e já deve ser uma senhora, mas que na escola quebrou o nariz de um colega com um soco depois que esse passou a mão no “rabo” dela. Segundo o senhor, a diretora, ao saber o motivo da agressão, deu razão a menina e suspendeu o rapaz! Um tanto radical, não?

Outro frequentador assíduo é um homem com uma menina no carrinho. Ele parece avô da criança, mas pelos padrões portugueses é mais provável que seja pai. O homem passava longe, empurrando sempre carrinho, gesticulava, dando um adeus, dizendo qualquer coisa. Eu nunca ouvia a voz dele, achava que era pela distância, mas acabei por descobrir que ele é mudo.


Então, comecei a falar com ele por gestos. Passei dias agindo assim, até que me perguntei, ele não fala, mas quem disse que ele não ouve também? Normalmente quem não fala, na verdade não o faz, porque não ouve. Normalmente... mas poderia não ser o caso. Já pensou o ridículo, eu ali gesticulando e o homem não é surdo! Resolvi perguntar e confirmei minha dedução, ele é surdo-mudo. Já os filhos – além da menina do carrinho, tem também um casal um pouco mais velho – falam e ouvem sem problemas. Bem, isso segundo ele me informou. O estranho é que eu nunca ouvi um único som vindo da mais nova. Será que ela fala mesmo ou ele deduziu isso pelo fato dos outros dois falarem? Ou será que eu entendi mal?

E assim as personagens e as histórias vão sendo construídas. É também assim que meus dias vão se tornando um pouco mais interessantes.

"E cada qual no seu canto /Em cada canto uma dor /Depois da banda passar /Cantando coisas de amor..."

8 comentários:

Amanda disse...

Eh incrivel pensar que cada uma dessas pessoas tem uma historia de vida diferente, todas com altos e baixos, com sonhos, decepções... As vezes ficamos tão preocupados com nossos proprios problemas que esquecemos de olhar pro lado!

Cris disse...

òtimo comentário. é isso mesmo. Observar e descobrir essas pessoas têm me dado muito prazer. Aliás, tanto q às vezes prefiro descobrir aos poucos ;)

Olha, tenho alguns tx "semi-prontos" vamos ver se tenho tempo pra postar. Andei bem enrolada...

bjao!

Pedro Paulo Bastos disse...

Observar os outros é muito prazeroso, e, no seu caso, um bom passatempo também, afinal, se for um boring day at work as pessoas continuam ali a transitar, cada uma com suas peculiaridades, e você se fixando nelas, enquanto os ponteiros do relógio vão passando, hehehe...
Divertido mesmo seria se esse seu serviço fosse em Copacabana; observar as pessoas lá é MUITO mais legal, hahaha... é cada figura...

Cris disse...

kkkk
em copacabana seria bizarro hahaha
só que eu não precisaria "investigar" nada, as personagens iam "gritar" na minha frente kkkkk

Amanda disse...

Pior que é! Observar pessoas em Copacabana deve dar até dor de cabeça! Pior que isso so observar pessoas no metrô de Paris! AHahaha!

Janete disse...

Em Copacabana vc não teria o prazer de imaginar a história de cada um,pois enquanto estivese neste devaneio passava um pivete e levava tua bolsa.

Cris disse...

Ah, mas tb nao ia perder nenhum detalhe, pq com certeza ia ter uma fifi pra me contar tudo e mais um pouco sobre a vida dela e da vizinhança inteira. E claro, ia querer saber da minha tb hehehe

Janete disse...

É verdade,eu fico pasma com as pessoas que conseguem,num consultório médico por exemplo,contar a sua vida em pouco tempo para pessoas que ela nunca viu na vida.Por estas e outras é que estou sempre de óculos escuros e com a minha revista de palavras cruzadas em punho.Bjs

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